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Prevenir-se, continua sendo melhor do que remediar-se

O medo de ter os efeitos colaterais, e a rapidez com que o cérebro alimenta as expectativas de que os piores deles aconteçam, é tão presente na realidade de algumas pessoas, que muitas vezes, a  bula torna-se mais prejudicial do que os próprios efeitos colaterais.

A maioria das pessoas tem uma grande tendência a acreditar demasiadamente em algo que de alguma maneira lhes é imposto. O problema é que no caso das bulas, não dá para ser assim. Raramente o paciente questiona sobre os efeitos colaterais e sobre a possibilidade destes acontecerem com elas, e quase que ironicamente, no conforto de suas casas, praticamente leem a bula inteira. Ler a bula não é errado, errado é imaginar que aquela dor de cabeça ocasionada pelo medicamento vai acontecer a partir exatamente daquele instante em que se leu a bula.

Ocorre uma situação contrária, onde não se pode deixar de tentar imaginar o quão interessante é a susceptibilidade de algumas pessoas à determinados tipos de  situações, nos casos por exemplo, de propagandas realizadas com pessoas reconhecidas na mídia nacional, de medicamentos isentos de prescrição (MIPS). Quase que instantaneamente, vê-se o comercial na TV e aquele medicamento 

torna-se um dos mais vendidos. Interessante é o fato de que não importa  se ele causa  algum  efeito  adverso, (e quase que certamente sua bula nem será lida, pois o rapaz e a garota do comercial disseram que aquele remédio é muito bom!). O médico e o farmacêutico meio que perdem seus papéis para aquele comercial que propaga o uso do medicamento “da vez”. Infelizmente acredita-se que se o medicamento é isento de prescrição, significa que não faz mal nenhum utilizá-lo de maneira contínua e sem supervisão dos profissionais adequados.

Uns leem a bula e se preocupam “demais” com os efeitos adversos, uns compram tudo que os é anunciado, e não se preocupam se de fato aquele  medicamento lhes virá a causar algum mal.

Na atualidade, os Farmacêuticos tem sido alvo de questionamentos irônicos do tipo: Para que prescrever algo que é isento de prescrição?

Não seria a pergunta correta a seguinte: Por que existem medicamentos isentos de prescrição, quando muitos dos seus consumidores não apresentam um perfil sociológico e psicológico adequado para lidar com o fato de que medicamentos são drogas que devem ser consumidas com restrição, atenção e responsabilidade?

Em um País onde não se pode contar com uma saúde de qualidade, não se deve achar “engraçado” o fato de farmacêuticos prescreverem o que qualquer pessoa pode comprar, quando e na quantia que bem entenderem. Deve-se parar para analisar os fatos, e assustar-se com a realidade de que os medicamentos são uma das maiores causas de morte por intoxicação no Brasil, e talvez um fator influente seja a venda tão propagada e liberada de determinados medicamentos, como se eles fossem isentos também de possíveis efeitos adversos ou colaterais.

A frase ao final da propaganda: “Ao persistirem os sintomas, procure o médico ou o farmacêutico” é tão rapidamente dita, que mal se pode ouvi-la. Além do que, uma pessoa vai esperar este sintoma persistir até quando? Afinal, ela muitas vezes não sabe a causa daquela dor de cabeça, por exemplo, e vai persistindo com o uso do medicamento, até perceber que não está de fato, agindo da melhor maneira consigo mesmo, considerando a importância que cada um deve dar à sua saúde.

Não é de todo ruim, ter medicamentos isentos de prescrição. Só é notável que é desproporcional à realidade do Brasil.

Um País que não conta com uma cultura madura o suficiente para saber até que ponto é viável o uso de determinada droga, não deveria ter acesso totalmente liberado a elas. Porém, ao mesmo tempo que é arriscado, se faz necessário. Se todos tivessem acesso a um atendimento de saúde com qualidade, sem dúvidas não seria tão grande o consumo destes medicamentos de venda liberada. O que acontece é que permanecer em filas de hospitais durante horas, para ser atendido sem ao menos ser submetido a um exame que permita um diagnóstico do problema, faz com que muitos dos brasileiros façam das farmácias seus únicos recursos quando precisam de algo que lhes retire aquele incômodo, ao menos que temporariamente.

O maior efeito adverso que pode ocorrer com qualquer pessoa, vem da cultura de acreditar que nada vai acontecer, até que de fato aconteça. Prevenir-se, continua sendo melhor do que remediar-se.

Cuide-se. Previna-se, e se for necessário, sobre supervisão e recomendação adequada, remedeie-se.

Fernanda Marinho – Farmacêutica Generalista*

*Mensalmente, o Espaço Farmacêutico abre este espaço para seus parceiros exporem suas opiniões e ideias sobre diversos temas. Portanto, este conteúdo é de total responsabilidade de seus autores.